Quinta-feira, 18 de maio de 2017 às 7:26 em Música
Padre Fábio de Melo clareia melodias, versos e mensagens em disco de MPB

Mauro Ferreira

Há dois anos, padre Fábio de Melo incursionou pelo universo da MPB em um dos melhores álbuns da discografia do religioso cantor mineiro, Deus no esconderijo do verso (2015). O recém-lançado álbum Clareou (Sony Music) segue pelo mesmo universo a reboque do mesmo produtor do disco anterior, o cearense José Milton, habitual piloto de álbuns de cantores como Fagner e Nana Caymmi. A diferença está no tom. Clareou é mais popular, vai mais direto ao ponto, tirando as mensagens do esconderijo dos versos.


No 20º álbum da discografia, padre Fábio se vale de letras positivistas de músicas de compositores populares – como Dudu Falcão, Elias Muniz, Frejat, Renato Teixeira e Serginho Meriti, entre outros nomes – para pregar o bem em sintonia com os valores cristãos. Nesse sentido, a sagaz regravação do hit viral Trem bala (Ana Vilela, 2016) – posto em trilho rural sob o toque do acordeom de Bebê Kramer – caracteriza bem o tom de Clareou, álbum arranjado à moda clássica pelos pianistas Cristóvão Bastos e Eduardo Souto Neto.


Canção de Elias Muniz que batizou álbum lançado em 2011 pelo cantor paulista Daniel, Pra ser feliz serve bem aos propósitos de Clareou na simplicidade da mensagem adornada com cordas de tom quase sentimental como o das cordas de Prece (Lilian, 2017). Até porque, em essência, o que Fábio de Melo faz neste bom disco é clarear melodias e versos providenciais para a pregação cristã.


Em que pese a recorrente opulência das cordas, sobressalentes em músicas como a balada Caminhos de mim (Dudu Falcão, 2014), os versos das canções estão em primeiro plano. Dentro dessa tradicional moldura musical na qual o produtor José Milton enquadra três inspiradas composições autorais de padre Fábio (ClaroProteção e Regras da vida), o samba Clareou (Serginho Meriti e Rodrigo Leite, 2013) – lançado pela cantora paulista Paula Lima, mas popularizado nas vozes do cantores carioca Diogo Nogueira e Xande de Pilares – soa mais perto do centro de salão de câmara do que de animado fundo de quintal.


Já É (Marcelo Quintanilha, 2008) se embrenha pelo mundo musical rural e fica perto da nação nordestina, em trilha seguida por O poder mágico (Telo Borges e Salomão Borges, 2004), música mineira arranjada em cadência próxima do xote. Talvez por ser composição de universo mais pop, Amor pra recomeçar (Roberto Frejat, Maurício Barros e Mauro Santa Cecília, 2001) soa meio deslocada no universo do disco, embora também seja essencialmente uma música de melodia e letra pautadas pela simplicidade que guia o padre cantor no disco.


Com mais propriedade, Clareou ilumina a beleza do cancioneiro de Flavia Wenceslau (compositora paraibana já avalizada pela cantora baiana Maria Bethânia), de quem Fábio regrava Te desejo vida (2010). E, como no interior tem Deus (muito) mais do que na selva das cidades, a lembrança da toada Raízes (Renato Teixeira) arremata o disco no toque da viola de João Lyra, um dos músicos virtuosos arregimentados por José Milton para dar forma a este disco em que padre Fábio de Melo tira Deus do esconderijo do verso, celebrando 20 anos de carreira fonográfica com coerência e (certa) ousadia na escolha de repertório profano que propaga os sagrados valores do bem-viver. 


(Crédito da imagem: capa do álbum Clareou. Fábio de Melo em foto de Washington Possato)

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